O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) manteve a prisão preventiva do advogado Rhiad Abdulahad, detido desde novembro de 2025 sob a suspeita de compor o núcleo de comando do jogo do bicho no estado. Preso durante a quarta etapa da Operação Successione, Rhiad teve o pedido de liberdade ou aplicação de medidas cautelares negado pelos desembargadores da 1ª Câmara Criminal. A defesa argumentava que os requisitos da custódia cautelar haviam cessado, utilizando como paradigma a conversão da prisão do réu Marco Aurélio Horta em regime domiciliar. No entanto, os magistrados entenderam que a manutenção da custódia se justifica pelo papel de liderança exercido pelo advogado, apontado como peça-chave na gestão financeira do grupo criminoso, e não por meros laços familiares com outros investigados.
A investida contra o grupo teve inÃcio em dezembro de 2023, quando o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco/MPMS) lançou a primeira fase da Operação Successione para desarticular a exploração da jogatina em Campo Grande. Na ocasião, dez alvos foram atingidos, incluindo o então deputado estadual Neno Razuk (PL), apontado como o lÃder da estrutura. As apurações começaram após registros de roubo de malotes entre facções rivais na capital, onde vÃtimas reconheceram um sargento da PolÃcia Militar do Estado como autor das abordagens. À época, o parlamentar negou qualquer ligação com o esquema, declarando surpresa e afirmando que a apuração provaria sua inocência.
Conforme detalhado pelo Ministério Público, a organização agia de forma violenta para tomar o controle do mercado ilegal na capital, mantendo as atividades mesmo após a apreensão de 700 máquinas do jogo do bicho em um endereço no bairro Monte Castelo, em outubro de 2023. Ainda em dezembro daquele ano, a segunda fase cumpriu 12 mandados de prisão e quatro de busca, revelando o envolvimento de policiais militares da reserva e um ex-militar. Aproveitando-se do porte de arma, esse braço armado submetia os operadores locais ao domÃnio do grupo para fixar a capital como seu novo território.
O desdobramento das investigações seguiu ao longo dos meses subsequentes. Em janeiro de 2024, a terceira fase cumpriu duas ordens de prisão e uma de busca, alcançando inclusive um investigado que se valia do nome do governador e do secretário de Segurança Pública para aplicar golpes. Já em novembro de 2025, o Gaeco deflagrou a quarta etapa, mobilizando 20 mandados de prisão preventiva e 27 de busca e apreensão em cidades como Campo Grande, Corumbá, Dourados, Maracaju e Ponta Porã, além de endereços no Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul. Esta fase mirou o clã Razuk: além de Neno, tornaram-se alvos seu pai, Roberto Razuk, e seus irmãos Rafael Godoy Razuk e Jorge Razuk Neto.
O histórico traçado pelos promotores aponta Roberto Razuk como antigo operador do jogo do bicho na região Sul do estado. O esquema em Mato Grosso do Sul era centralizado até os anos 1990 por Fahd Jamil — que também acabou atingido pelas fases anteriores da Successione. Ao se afastar da linha de frente, Fahd fatiou a atuação no estado em duas áreas: a capital ficou sob o domÃnio de Jamil Name, enquanto o feudo de Dourados e Ponta Porã foi entregue a Roberto Razuk, embora o antigo lÃder mantivesse sua influência bastidora. Por fim, em maio de 2026, a Justiça Eleitoral decretou a perda do mandato de Neno Razuk devido a uma recontagem dos votos das Eleições de 2022. Meses depois, em julho, sua prisão preventiva foi decretada a pedido do MPMS; o ex-deputado permaneceu foragido até ser localizado e preso em agosto.
- Redação





